O monstro | The monster
É um monstro que está ali. Devorou o meu avô, os meus pais que ali se conheceram e devora-me agora a mim. Tem muito de monstro, já que sucessivas gerações nasceram, viveram e morreram à sua sombra. Mas tem também muito de patriarca, que, ainda que de forma avarenta, vai alimentando os seus inúmeros filhos, controlando a sua vida laboral com mão-de-ferro, mas garantindo o seu sustento. Pelos cafés das redondezas, a maior parte do ano fala-se mal do monstro, dos ordenados miseráveis, das pausas controladas ao minuto, dos acidentes de trabalho escondidos. Mas aproximando-se Dezembro, e o tão esperado prémio esmola anual e o cabaz natalício, a maré de maledicência muda e enquanto durarem os géneros do cabaz, o monstro é substituído por uma entidade salvífica que continua a resgatar tantos e tantos da miséria. É portanto uma relação de amor ódio que temos com esta fábrica. There’s a monster over there. It devoured my grandpather, both of my parents, that actually met there, and nowadays,...