O ano dos abraços | Year of the hugs

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Esta fotografia foi tirada exactamente um ano depois da minha mãe falecer.


O meu pai, que a amava tremendamente, andou durante esse primeiro ano completamente perdido. Se eu deixasse, ficava no sofá, horas seguidas, comigo ao colo, a abraçar-me e a deixar cair uma ou outra lágrima que não conseguia reprimir.


Eu não sabia o que lhe dizer, nem o que fazer. Também eu sentia horrivelmente a ausência da minha mãe. E deixava-me ficar ali, com ele, a consolar-nos um ao outro. Assim vivemos um ano, perdidos naquele abraço, para o qual corríamos depois de jantar e arrumar a cozinha.


Neste dia, o meu pai vestiu-nos a rigor e levou-me a passear de barco, que era uma coisa que a minha mãe adorava. Ele disse que estava na altura de continuarmos as nossas vidas, mas que, fizéssemos o que fizéssemos, a minha mãe estaria sempre no meio do nosso abraço. E a partir desse dia, o meu pai voltou a sair com os amigos, eu voltei a ir brincar para a rua e a ir a casa das minhas amigas e elas a vir à minha casa e a vida foi pouco a pouco retomando o seu ritmo.


Chamámos àquele ano, o “ano dos abraços”, que acabou por ser uma doce memória com que ambos ficámos, no meio da tragédia que vivemos.


 


This picture was taken exactly a year from my mother passed away.


My, father, wich did love her tremendously, spent a all year completly lost. If i let him, we would stay on the couch for hours, with me on his lap, just hugging me and letting one or other tear that he could not repressse, falling down his face.


I did not know what to say to him, or what do do as i did to missed my mother horribly. So i just stayed ther with him, taking confort from one another. We lived lihe this for a all year, lost in that hug, to where we ran, as soon as we finished dinner and cleanned the kitchen.


On this day, my father dressed up both of us and took us on a boat ride, wich was a thing that my mother loved to do. He said that it was about time for us to came back to life, but that, no matter what we did, my mother would always be in the middle of our hug. And from that day on, my father started to see his friends again and i got back to play in the street and visit my friends in theirs houses, and they came to visit me too. So, i guess life took it´s own passe again.


We called that year, “hug year”, and it turned out to be a sweet memory for both, in the middle of the tragedy we lived.

Comentários

  1. .
    Não imagino a dor de perder pai ou mãe.
    O ano passado perdi fisicamente um amigo que considerei como "pai" , pelas circunstâncias da vida foi para longe.
    foi uma dor insuportável, só queria ter ali alguém a meu lado que me abraçasse para preencher esse vazio..
    Força e coragem.

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  2. como nao é possivel adiarmos as tragedias que nos surpreendem e vitimam, resta o tempo de superaçao.

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  3. Olá! O texto não é sobre a minha mãe. Mas poderia ser. Perdi-a há 7 anos e ainda dói! Obrigado e volte sempre.

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  4. A minha mãe faleceu relativamente cedo. Tive meio ano para me preparar para a perda, Quando partiu não chorei. Eu tinha superado já o acontecimento. Achei-me, mais que conformado, que era forte. Puro engano. Quando a minha mãe saiu de casa para rumar à igreja e ao cemitério não resisti. Chorei mudo, mas amargamente como nunca. Parte de mim foi com a minha mãe.

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  5. Nunca tinha chorado. Chorei quando o hospital me ligou. Mas sobreviveu.
    E quando meses depois partiu definitivamente nao chorei.
    Mas anos volvidos continuo a chorar nao chorando.

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  6. Eu confesso que ainda deixo cair uma lágrima teimosa, de vez em quando! 😍

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  7. Caríssima Autora Ana Raquel uno-me aos vossos Caros Leitores nos belos comentários que vosso texto suscita em cada um , de nós , em nossas almas, na singularidade e preciosidade dos mais finos sentimentos filiais face a finitude física de nossos Pais e a Eternidade de Memória que guardamos ad perpetuam ..
    Agradeço este presente imaterial - vosso texto'' O ano dos abraços''.....Pura Poesia e Amor.
    Meus Cumprimentos.Respeitosos.
    Dra. Laura Bastos

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  8. Obrigado. É "apenas" uma história, embora inspirada de facto, na morte da minha mãe. Ainda bem que várias pessoas gostaram e se sentiram tocadas por ela!
    Obrigado pelas suas palavras.

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